sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Aporte extra de recursos para o FMI divide o G-20

Fonte: Valor Econômico
Autores:  Alex Ribeiro e Assis Moreira

Os ministros de Finanças do G-20, grupo com as mais importantes economias do mundo, vão divididos a uma reunião neste fim de semana, na Cidade do México, que discutirá o pedido de aporte de até US$ 600 bilhões feito pelo Fundo Monetário Internacional (FMI) para combater os efeitos globais de um eventual agravamento da crise europeia. Fontes que acompanham as negociações dizem que será muito difícil um acordo. Mas é possível um comunicado delineando como seria o formato do aporte ao Fundo


Os ministros das finanças do G-20, grupo com as mais importantes economias avançadas e emergentes, vão divididos a uma reunião neste fim de semana na Cidade do México que discutirá o pedido de aporte de até US$ 600 bilhões feito pelo Fundo Monetário Internacional (FMI) para combater os efeitos globais de um eventual agravamento na crise europeia.

Fontes que acompanham as negociações dizem que será muito difícil um acordo final. Mas é possível um comunicado delineando como seria o formato do aporte de recursos no FMI. Mas a decisão sobre valores e sobre quem vai contribuir deve sair apenas na reunião de abril do G-20 em Washington, que ocorre em paralelo ao encontro de primavera do fundo e do Banco Mundial.

Segundo uma fonte do governo em Brasília, o Brasil caminha para fazer um empréstimo bilateral ao FMI com recursos das reservas internacionais. Os valores seriam contabilizados como ativos nas reservas. Outros países preferem abrir uma linha de crédito ao FMI, que seria sacada apenas em caso de necessidade.

Entre as distintas posições em jogo no G-20, num extremo estão os Estados Unidos. O presidente americano, Barack Obama, disputa a reeleição neste ano e está pouco disposto a pagar o preço político de enviar um projeto ao Congresso pedindo dinheiro do contribuinte para combater uma crise europeia.

Os EUA resistem à ideia de um fortalecimento do fundo por meio de acordos bilaterais. "Como não querem ficar isolados, e numa posição politicamente delicada, os americanos jogam contra esse mecanismo", diz uma fonte. A percepção é de que Washington prefere que o próprio FMI faça nova emissão de sua moeda, os Direitos Especiais de Saque (DES), a exemplo dos US$ 250 bilhões emitidos na crise de 2009 - só que nesse caso os europeus é que torcem o nariz.

No outro extremo, está a própria Europa, que já indicou que colocará pelo menos € 150 bilhões no FMI, mas pode buscar mais dinheiro junto a outros países do continente, o que em tese poderia elevar a soma para US$ 250 bilhões.

No meio da disputa estão economias emergentes, como o Brasil, Rússia e o México, país que neste ano preside a agenda do G-20. Todos estão dispostos a ajudar, desde que o FMI avance mais rápido na sua reforma de cotas e os europeus deem indicações de que vão fortalecer seus fundos de socorro para evitar novos contágios da crise. Mas, em geral, esses países acham que as duas coisas podem ser feitas paralelamente.

As posições mais importantes nesta reunião, porém, são a do Japão e a da China. "Os Estados Unidos já deixaram claro que não vão ajudar, mas eles não podem impedir que outros países o façam", afirma uma fonte de Washington que acompanha as negociações. "Já o Japão e a China são essenciais, porque eles devem colocar o grosso do dinheiro não-europeu."


Até há poucas semanas, o Japão vinha sinalizando disposição em colocar dinheiro no FMI sem pedir muito em troca. Nos últimos dias, entretanto, passou a exigir que primeiro a Europa reforce os seus dois fundos que atuam em socorro de países em dificuldades na região. A expectativa é de que o Japão repita o que fez na última operação de reforço de caixa do FMI, de 2009, colocando US$ 100 bilhões. Na ocasião, a China emprestou US$ 50 bilhões, e o Brasil e a Rússia contribuíram com US$ 10 bilhões cada. Há pedidos para ampliar os valores para as contas fecharem nos US$ 600 bilhões pedidos pelo FMI.

Na Cidade do México, os membros do G-20 basicamente devem reforçar a pressão para a Europa agir. Os líderes europeus planejam se reunir no começo de março para discutir o reforço dos seus dois mecanismo de socorro, o Fundo Europeu de Estabilidade Financeira (EFSF, na sigla em inglês) e o Mecanismo de Estabilidade Europeia (ESM, também em inglês). Depois da ajuda dada a Grécia, Irlanda e Portugal, os três países na linha de frente da crise europeia, o EFSF tem apenas € 250 bilhões livres para evitar o contágio de outras economias. O ESM terá € 500 bilhões em caixa. Uma das ideias em estudo é combinar os dois fundos. Mas países do norte do continente, sobretudo a Alemanha, opõem-se à ideia.

As necessidades de recursos contra contágio vêm aumentando. Em Cannes, em novembro, o FMI previa aumentar sua capacidade financeira para US$ 1 trilhão por meio de US$ 300 bilhões de acordos bilaterais com países membros e emissão de US$ 250 bilhões de DES. Agora, o fundo dobrou para US$ 600 bilhões a necessidade de recursos por acordos bilaterais, e a nova emissão de DES não foi tirada da mesa de discussões

Como os EUA têm dificuldades para participar do pacote, e tampouco acham que devem ajudar países europeus ricos, negociadores admitem que a participação dos emergentes pode crescer. Os Brics (Brasil, Rússia, China e Índia) são mais abertos a um aporte imediato no FMI porque foi o grupo que, originalmente, levantou a tese de que será necessário ampliar o caixa do FMI, que hoje tem cerca de US$ 500 bilhões disponíveis.

As negociações também são vistas como uma oportunidade para aumentar o poder de barganha na agenda de reforma das cotas do FMI, transferindo poder de voto para as economias emergentes.
Uma fonte do governo em Brasília afirma que a tendência é o Brasil fazer um empréstimo ao FMI com vencimento em janeiro de 2014, quando ocorre a nova rodada de negociação de cotas. Mas não há uma ligação imediata entre os dois assuntos. "Esse é o subtexto", afirmou essa fonte "Ninguém quer colocar dinheiro no FMI de forma permanente sem aumento de cota."

Ontem, o FMI evitou levantar muitas expectativas sobre a reunião do G-20. "Será uma boa oportunidade para construir algumas fundações ao longo desse caminho", disse o porta-voz do FMI, Gerry Rice. Um dia antes, a funcionário do Departamento do Tesouro americano que cuida do tema, Lael Brainard, insistiu que, antes de o FMI discutir novos aportes de recursos, será necessário a Europa reforçar os seus fundos de resgate.

Em Bruxelas, a expectativa é de que neste fim de semana os ministros de finanças e presidentes de bancos centrais concordem sobre condições gerais do pacote para o fundo. Em seguida, os países da zona do euro aprovariam um aumento de seu próprio "firewall", o Mecanismo Europeu de Estabilidade. O pacote para o FMI seria aprovado em abril, em Washington.

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